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MIOMAS X GRAVIDEZ

MATRIZ DA CRIAÇÃO

Um terço das mulheres adultas tem miomas, tumor uterino que é benigno, mas pode provocar infertilidade; problema é a causa de 90% das cirurgias de retirada do útero

TEREZA NOVAES
da Revista da Folha

Útero – Situado entre a bexiga e o intestino reto, o útero tem um tamanho médio de 6 cm de altura por 4 cm de largura. É o órgão com maior elasticidade do corpo; sua capacidade pode passar de 6 mililitros para 5 litros no final da gravidez.

Cerca de 30% das mulheres em idade reprodutiva têm mioma, nome dado aos tumores da camada muscular do útero. Apesar de ser uma formação benigna, sem risco de evoluir para um câncer, o mioma é responsável por 90% das cirurgias de retirada de útero, a chamada histerectomia. O número de cirurgias decorrentes de casos de câncer de colo do útero, uma doença muito mais perigosa, são bem menos comuns.

“Um terço das mulheres tem mioma, um número relativamente grande, mas apenas 10% delas apresentam sintomas, ou seja, miomas que crescem muito ou resultam em hemorragia”, explica Nelson Valente Martins, professor de ginecologia da Unifesp.

Há três tipos de miomas, todos eles com crescimento estimulado pelo hormônio estradiol, uma variação do estrogênio: os que crescem dentro do próprio músculo (intramurais), os que se expandem para dentro da cavidade uterina (submucosos) e aqueles que se desenvolvem para fora do útero (pediculados).

“É um tumor benigno cuja causa a medicina desconhece. Todas as mulheres têm hormônios, mas nem todas têm mioma. Em algumas, o aparecimento é um enigma”, explica Gilberto da Costa Freitas, diretor de reprodução humana do hospital Pérola Byington (Centro de Referência da Mulher).

Os miomas podem interferir na fertilidade, dificultando a fixação do embrião nas paredes do útero, e também alterar a qualidade de vida de suas portadoras, gerando aumento desmedido do fluxo menstrual (o que pode deixar a mulher anêmica), inchaço, dores e problemas causados pela compressão de órgãos vizinhos, como prisão de ventre, vontade freqüente de urinar etc.

Na maioria das mulheres, contudo, os miomas permanecem assintomáticos, e a tendência é que desapareçam com a redução dos hormônios causada pela menopausa.

A incidência costuma ser maior entre alguns grupos da população. Negras, obesas, hiperestrogênicas (que produzem muito estrogênio), mulheres com predisposição genética, aquelas que tiveram primeira menstruação muito cedo e as sem filhos estão entre as mais atingidas.

Tratamentos

No Brasil, a histerectomia é a intervenção ginecológica mais freqüente, perdendo somente para os partos, segundo Simone dos Reis Brandão da Silveira, ginecologista do Hospital Universitário da USP. Dados do SUS (Sistema Único de Saúde) informam que o país realizou, em 2003, 114 mil operações do gênero.

A erradicação total do órgão é o único tratamento que garante a eliminação definitiva dos miomas, mas outros três podem ser eficientes e são mais aplicados, embora não evitem a reincidência dos tumores: medicação com hormônios que controlam o estradiol; a miomectomia, cirurgia de retirada dos miomas, e a embolização, que consiste em entupir o vaso sangüíneo com micropartículas de PVA, substância derivada do petróleo, bloqueando a passagem de sangue que “alimenta” o tumor.

“A embolização usa um cateter, que é introduzido numa veia na virilha. Com o auxílio de um aparelho de imagem, a cânula busca os vasos que se quer fechar”, explica Néstor Kisilevzky, cirurgião especialista em radiologia intervencionista e professor da Unicamp.

Entre as vantagens do procedimento, Kisilevzky lista: “Não é invasivo, exige somente anestesia local e a incisão é de um milímetro, por isso a recuperação é rápida. Além disso, o procedimento trata do útero como um todo: em uma sessão mata todos os miomas, porque pega as duas principais artérias uterinas, que irrigam os tumores”.

Descrita pela primeira vez em 1995, por uma equipe francesa, a técnica chegou ao Brasil no final dos anos 90, mas não é unanimidade entre os médicos. “Embolização não é prática corriqueira, é uma técnica em investigação, aplicada em caráter experimental. Ainda não se chegou a nenhuma conclusão sobre isso”, diz o diretor do Pérola Byington. Os críticos dizem que o procedimento pode gerar necrose (morte) e a inevitável retirada do órgão. Tanto na miomectomia como na embolização, as chances de engravidar depois são de 30 a 40%.

A histerectomia costuma ser o último recurso dos médicos, quando os sintomas são muito fortes e não há desejo de engravidar. A cirurgia geralmente é feita pela vagina, a via de acesso mais fácil. “A vantagem é que o pós-operatório é mais curto, algumas pacientes nem percebem que foram operadas, já que os pontos ficam no colo uterino, no fundo da vagina”, explica Simone da Silveira, ginecologista do Hospital Universitário da USP.

Um dos temores mais freqüentes de quem se submete à retirada total do útero é o perder a “feminilidade”. “Muitas mulheres atribuem a feminilidade à questão da reprodução, o que é um preconceito.

Não é o útero que determina isso”, pondera a psicóloga Clara San Martin, 39, que passou por uma histerectomia em setembro do ano passado, por causa de miomas.

Quando os ovários são mantidos, como no caso da psicóloga, a mulher continua sentindo as mesmas reações anteriores à cirurgia, porque a quantidade de hormônios produzida permanece normal. Se os ovários são retirados e a paciente é jovem, é necessário fazer reposição hormonal. “A mulher pode inclusive continuar com tensão pré-menstrual, ela só não vai menstruar”, diz Simone da Silveira.

Para a psicóloga Clara, a situação é até divertida. “Nos primeiros meses, ficava esperando e não vinha, comprava um monte de absorventes. Há dois meses comecei até a sentir um inchaço no seio quando minha filha vai ficar menstruada”, conta Clara.

Os exames de prevenção também devem permanecer na agenda. “Se o colo do útero for preservado, o papanicolau deve ser anual. Se for retirado, o exame pode ser feito de três em três anos”, diz a médica.

Apesar de rara, a histerectomia também pode ser indicada em casos de endometriose, quando esse tecido da parte interna do útero se desloca para para outras partes do corpo, gerando um processo inflamatório crônico que pode causar, além de dor, infertilidade. “Pacientes com dor insuportável, às vezes, se beneficiam desse procedimento”, diz Caio Parente Barbosa, chefe da clínica ginecológica da Faculdade de Medicina do ABC.

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